ENCONTRO NACIONAL DOS COMANDOS DA GUINÉ – 1964 / 66

COMANDOS GUINÉ - 45 ANOS DEPOIS


ALMOÇO DE CONFATERNIZAÇÃO EM 19/06/2011


CAMARADAS, VAMOS FECHAR AS COMEMORAÇÕES DO NOSSO REGRESSO DA GUINÉ, FAZ ESTE ANO 45 ANOS, PARA OS ÚLTIMOS QUE DE LÁ VIERAM.

PERGUNTARAM ALGUNS DE VÓS, MAS TANTO TEMPO A COMUMERORAR?

É VERDADE, DESDE 2010 a 2011, EM QUE SE COMEMORAM OS NOSSOS REGRESSOS À 45 ANOS.

VAMOS POIS JUNTARMO-NOS NOVAMENTE NUM ALMOÇO-CONVÍVIO EM TORRES VEDRAS.

LOCAL E DATA:

"RESTAURANTE "OS SEVERIANOS"

A

19 DE JUNHO DE 2011

PELAS

11:30 HORAS

TRAZEI A FAMÍLIA





IDES RECEBER TODAS AS INDICAÇÕES ATRAVÉS DE CARTA QUE VOS SERÁ ENVIADA PELO CORREIO.

PARA MIM, PARA TI OU PARA ALGUM DE NÓS PODE SER A ÚLTIMA OPORTUNIDADE PARA ESTARMOS JUNTOS. POR ISSO VEM PASSAR UMAS HORAS DE SÃO E SALUTAR CONVÍVIO CONNOSCO.


ESTE ANO VAMOS TENTAR LEMBRAR OS NOSSOS ANTIGOS HERÓIS QUE AS CHEFIAS MILITARES TÃO COBARDEMENTE ABANDONARAM À SUA SORTE, E QUE OS NOSSOS GOVERNANTES NADA FIZERAM PARA MINORAR TUDO PORQUE PASSARAM. POIS, FORAM ESTES BRAVOS DO PELOTÃO QUE DEFENDERAM OS SEUS INTERESSES.

VAMOS TAMBÉM LEMBRAR OS NOSSOS SOLDADOS NATURAIS DA GUINÉ, QUE AO NOSSO LADO LUTARAM E QUE TÃO COBARDEMENTE FORAM ABANDONADOS NA HORA DA DESPEDIDA PELAS CHEFIAS MILITARES.

POR TUDO ISTO VINDE À NOSSA CONCENTRAÇÃO EM TORRES VEDRAS - RESTAURANTE "OS SEVERIANOS" .

" QUERER É PODER "

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HINO DOS COMANDOS

terça-feira, 27 de abril de 2010

G.C.G. - A0035 : A PREPARAÇÃO DA INSTRUÇÃO

O Comandante do CIC da Guiné, aproveitando a passagem por Bissau em Junho de 1964, do Comandante do CI 25 de Angola, Capitão Sousa e Castro, foram trocadas impressões sobre a formação dos Comandos na Guiné, esclareceram-se dúvidas e acertaram-se muitas medidas tendentes a melhorar os aspectos práticos da Instrução; nascendo desta troca de impressões um "MANUAL" com as instruções necessárias para o Curso que estava na altura a decorrer ( 1º CURSO de COMANDOS) e para futuros Curso que se viessem a organizar.
Assim, nasceu aquele que passou a ser a bíblia da Instrução dos Comandos da Guiné; claro que esta podia ser modificada conforme as circunstâncias.
Por ser um documento tão importante, vamos passar a descrevê-la:
Como se previa esta era dividida numa série de rubricas, as quais se adaptavam à nossa espécie de guerrilha, assim contava-se, com:

-- Higiene e Primeiros Socorros - Feridos de Guerra - 2 horas

  • Tipos mais frequentes. Principais problemas; perda de sangue e infecções. Feridas na cabeça, tórax e abdómen.

  • Controlo da perda de sangue.

  • Aplicação de garrote e pensos compressivos.

  • Aplicação de pensos individuais.
-- Técnica de Combate - Actos Individuais do Combatente - 6 horas

  • Deslocar-se.

  • Livre e debaixo de fogo.

  • Em todas as condições do terreno: mata aberta e cerrada, capim alto e baixo.

  • Nos trilhos, nas picadas, nas clareiras.

  • Cuidados durante a progressão: segurança, silêncio, atenção

  • Por lanços, curtos e rápidos.

  • Rastejar, de cócoras, de pé, a rolar em corrida, por salto, em marcha de macaco, corrida em Zig-Zag.

  • No meio liquido a diferentes profundidades com pé e sem pé.
-- Observar - 4 horas

  • Escolher o local donde consiga localizar o IN; deslocar-se até lá.

  • Observar antes de se abrigar.

  • Observar sempre, durante o deslocamento, durante o salto, durante o ataque.

  • Enganar o IN com truques, com movimento, com pedras, para observar.

  • Observar o IN para fazer fogo sobre ele.

  • Observar para evitar a surpresa.
-- Abrigar-se - 4 horas

  • À ordem, à vista, ao som de um tiro. Obrigar o instruendo a ter a noção de que todo o seu corpo está abrigado e não só parte dele. Utilizando projécteis de perigo progressivo até ao tiro real.

  • Escolha ou adaptação do local de modo que possa fazer tiro nas melhores condições

  • Fazer tiro antes de se abrigar.

  • Abrigar-se e fazer tiro.
         NOTA: Todas as fases desta instrução deviam ser exigidas até ao mínimo pormenor e repetidas tantas
                       vezes quantas as necessárias até à execução perfeita, por cada instruendo. Nos treinos, para
                       abrigar, seriam utilizadas pedras, no início, mas depois, pressão de ar.

-- Táctica de Equipa - 21 horas Diurnas - 6 horas Nocturnas

  • Formação das Equipas, com base nas aptidões demonstradas durante a instrução individual, nos laços de amizade entre os instruendos, nas suas afinidades regionais, na capacidade de chefia, na subordinação e respeito mútuo.

  • Dentro da Equipa, a função de cada elemento:  Na progressão tendo em vista os pontos executados na fase individual.

  • Idem na observação.

  • Idem na Segurança.

  • Treino das Equipas funcionando em Apoio, Manobra ou Protecção e Decepção.

  • Articulação
-- Instrução com Viaturas (jeep, jeepão ou unimog, GMC, Mercedes) - 4 horas

  • Individual:

  • Modo e local de instalação na viatura

  • Salto da viatura em movimento, aumentando progressivamente a velocidade.

  • Salto da viatura para a berma da estrada, abrigando-se e ocupar posição de tiro.

  • Idem com lançamento de granadas de mão.

  • Equipas:

  • Localização de cada elemento dentro da viatura, conforme o seu tipo.

  • Função de cada elemnto no que respeita à ligação entre eles e com as outras Equipas, observação, segurança, missão em caso de emboscada, mina ou fornilho.

  • Segurança em andamento, nos pequenos e grandes altos.

  • Considerar o caso de viatura isolada e em coluna.
-- Instrução com Helicópteros - 2 horas

  • Equipas:

  • Distribuição pelos lugares.

  • Salto de Helicóptero.

  • Tomada de posição.

  • Abandono.

  • Dispositivo.

  • Recolha:

  • Dispositivo.

  • Tomada de lugares.

  • Segurança.
-- Informações - 5 horas 
  • Mostrar como cada Combatente pode ser útil na pesquisa de informação
  • O que são notícias e informações.


  • Origem da notícia.

  • Apresentação de material capturado ao IN como resultado da acção das tropas.

  • Modo de tratamento de prisioneiros.

  • Modo de actuação do IN deduzido através de notícias dadas pelas tropas; aguçar o interesse do Combatente pela pesquisa de notícias.
Ao mesmo tempo saíam as Normas para as Provas de Selecção de Praças e Quadros, as quais estabeleciam os valores mínimos a cumprir no teste de potência e no comportamento individual no teste de agressividade,que era realizado num combate de boxe que deveria realizar-se num espaço de tempo curto e apenas o necessário para se verificar o grau de comportamento combativo de cada um, que traduzia o respectivo espírito de combatividade.
Os Quadros eram igualmente solicitados a responder a um inquérito inicial em que, na introdução dizia:"Responda conscienciosamente às questões postas,atendendo que deverá fazê-lo tal como é ou pensa, e não como julgaria que deveria ser ou pensar".

Do extenso rol de questões colocadas, seleccionamos algumas a tulo exemplificativo:


-- Como admite a disciplina militar?
-- Diz-se "cumprir um dever". Porque não se dirá "cumprir uma obrigação"?
-- tem alguma ideia sobre a evolução do terrorismo? Diga qual de modo sucinto.
-- A vida militar, diz-se, é um sacrifício permanente; acha que deverá sê-lo? Porquê?
-- É metódico? Gosta de se deitar a horas certas? Gosta de se levantar cedo ou levanta-se 
    com dificuldade?
-- Como justifica perante a Nação a existência do Exército?
-- A coerência não é uma virtude mas sim honestidade de consciência.
     Comente a frase.

O COMANDO é um individuo que possui, no mais alto Grau, as seguintes caracteristicas:

  1. Discíplina e grande espírito de sacrifício.

  2. Forte espírito de corpo e camaradagem.

  3. Domínio e controlo dos impulsos.

  4. Treino intenso.

  5. Elevada preparação física.

  6. Instrução e prática de tiro.

  7. Técnicas de sobrevivência.

  8. Processows e técnicas de ligação.

  9. Explosivos, minas e armadilhas.

  10. Preparação psicológica e mentalização.
Como já atrás foi dito o "COMANDO" tem de ser uma verdadeira "MÁQUINA DE GUERRA", pois disso depende a sua sobrevivênvia.
(Texto tirado do Livro"resenha H.M.C.A.- Comandos-Os Grupos Iniciais - II GUINÉ 1963-1966)

segunda-feira, 26 de abril de 2010

G.C.G. - A0034: GUINÉ - 4ª PARTE - O DESCANSO DAS ARMAS



Slide gentilmente cedido pelo Cmdt do GRUPO "DIABÓLICOS"
Alferes Comando V.BRIOTE - Autor e Proprietário deste slide

G.C.G. - A0033 : DIRECTIVAS AOS INSTRUTORES E MONITORES

O Comandante do Centro  teve a preocupação de assegurar a todos os instrutores e monitores, uma correcta e adequada interpretação de qual a finalidade do Centro, da Missão dos Comandos, das suas caracteristicas e das principais componentes da Formação. Não era aceitável que houvessem interpretações diferentes,já que essa situação teria reflexos negativos junto dos instruendos. Assim, o Comandante do Centro elaborou e difundiu diversas directivas sobre esses assuntos, dirigidas aos instrutores e das quais registamos algumas:

-- Finalidade do Centro de Instrução
     "Formação de Grupos de Combate que, com base em elementos seleccionados entre os mais aptos das Unidades em operações,apresentem no final da instrução uma mais cuidada como objectiva preparação e um espírito agressivo mas controlado, indispensável à execução de missões de maior risco ou dificuldade".

-- Missão de Comando
    " Ataque a objectivos definidos, em proveito das tropas em quadricula e de intervenção, quer como processo de destruição inimiga, quer ainda como fonte indispensável de informações que possam nortear a actividade operacional daquelas tropas e também acções de caça nos sectores onde actuam".

-- Caracteristicas dos Comandos
     " Elevada autonomia, rusticidade, resistência à fadiga, fragilidade e apurada técnica de combate"

-- Valorização fisica, Moral e Técnica do Instruendo
     Os condicionamentos da Finalidade, da Missão, e das Caracteristicas da Tropa Comando impõem garantir ao Comando, as condições físicas, morais e técnicas indispensáveis más exigências enunciadas.

1ª Condição - A Valorização Física do Instruendo

" É evidente de que a fadiga pode ser utilizada como um poderoso meio educativo, que a fome, o desconforto, o medo, e a própria sêde podem ser meio de inestimável valor formativo ... deve pois o Instrutor ou monitor ser cuidadoso e criterioso na aplicação desses processos,doseando-os ao longo da instrução,de maneira que o instruendo vá, sem problemas de maior, vencendo essas dificuldades que de pequenas no início, irão aumentando paralelamente com a formação física do instruendo.
A Educação Física Militar deve ser dada com um aumento constante de esforço de maneira que gradualmente o instruendo vá ganhando resistências físicas que lhe permita executar sem dificuldade, longas marchas através da mata e de regiões alagadas, resistindo à fadiga e mantendo sempre em boas condições o seu Espírito Agressivo.
A Educação Física Militar deve ser sempre levada ao máximo no aspecto de emulação individual, pois será dessa emulação entre os instruendos que aparecerão aqueles que mais tarde terão possibilidades de serem os Chefes das Equipas".

2ª Condição - A Valorização Moral do Instruendo

"O simples facto do Instruendo ser seleccionado entre os mais aptos das Unidades em operações, cria nele uma ideia de superioridade que deve ser mantida mas corrigida e melhorada durante toda a instrução.  Como Comando que será,  tem de justificar a sua escolha e proceder com aprumo, lealdade e justiça, ser camarada e ter orgulho em ser Comando, mas nunca desprezar os seus camaradas que por razões várias não são comandos como ele.
A valorização moral do instruendo caminha paralelamente com a sua valorização técnica.  Quanto melhor esta for, mais firme será a confiança em si próprio e nas suas possibilidades.
Deve ser tratado como um homem, largando-o nas suas iniciativas, mas incutindo-lhe sempre a noção de grupo ou equipa em que viverá e para a qual trabalhará; da sua capacidade de execução individual, irá depender o valor ou eficácia da equipa a que pertencer e que por sua vez influirá no entendimento do Grupo de Combate.
Assim os instrutores e monitores aproveitarão todas as oportunidades que se oferecerem no decorrer da instrução ou na vida do Centro para se avivarem os preceitos referentes à Educação Cívica e Moral do Soldado.
È de extraordinário interesse a provocar atender, nesta valorização moral, a aspectos de acção psicológica e de doutrinação dos instruendos.  É necessário que cada Comando saiba:

--- a razão de ser da luta que trava;
--- os fundamentos da acção militar;
--- os fundamentos jurídicos e políticos da mesma luta;
---a negação do fundamento da acção inimiga;
--o descrédito do modo actuação inimiga-selvajaria.

Devem pois os instrutores aproveitarem todos os momentos livres, especialmente os de descanso para, reunido o seu Grupo de Combate, provocar uma conversa que interesse a todo o Grupo; permitindo a sua livre discussão, orientada é certo, e não só falando, mas muito especialmente fazendo falar.  Devem lembrar-se sempre que para manter uma luta é necessário acima de tudo, uma consciencialização do procedimento".

-- 3ª Condição - A valorização técnica do Instruendo

È chamada a atenção aos instrutores e monitores para a necessidade excepcional de valorização individual do instruendo.  A valorização técnica do instruendo está dividida, ao longo de oito (8) semanas de instrução, 3 Fases distintas:

1ª Fase - Instrução Básica
2ª Fase - Instrução Pré-Operacional
3ª Fase - Instrução Operacional

1ª Fase - Instrução Básica

"Nesta 1ªFase, quer as matérias incluídas no Programa, quer a forma de execução quer ainda o ambiente em que se administra, visam quase exclusivamente a educação individual dos aspectos morais e físicos e a melhoria da capacidade de execução.`
É nesta 1ªFase que se consegue, levando a instrução ao mais elementar pormenor, lançar as bases indispensáveis para o trabalho de equipa, que virá depois.  Nesta 1ª Fase irão criar-se as condições indispensáveis para a descoberta e exploração de afinidades entre os indivíduos e que representarão as bases da constituição das pequenas equipas, como forma indispensável ao trabalho, ou à instrução de conjunto".
Após a 1ª Fase de valorização  individual e encontrando-se as bases de trabalho em equipa, entra-se na:

2ª Fase - Instrução Pré-Operacional
(
"Nesta fase inicia-se a integração dos valores individuais no trabalho conjunto levado ao pormenor, ou melhor, ao quase automatismo.
Toda a instrução será levada ao mais pequeno pormenor, com exagero até, repetindo e fazendo repetir tantas vezes quantas as necessárias todos os exercícios para que os mesmos se executem com automatismo e sem a mais pequena hesitação.

Uma vez conseguidas as condições e satisfeitas as necessidades da 2ª FASE passa-se à:

3ª Fase - Instrução Operacional 

Com esta fase dá-se início ao trabalho de formar os Grupos; esta última fase da formação dos Grupos, constituirá de facto o trabalho táctico me de coordenação das Equipas formadas.
Será nesta fase, que orientando e impulsionando os instruendos, se lhes proporciona o cunho pessoal e de livre iniciativa, tão necessária à forma de acção a que estar4ão ligados.

No final do Curso um COMANDO tem de ser uma MÁQUINA DE GUERRA PERFEITA; POIS DEPENDE DELE E DA SUA TÉCNICA DE GUERRILHA A SUA SOBREVIVÊNCIA; UM COMANDO NÃO ERRA; NUMA PALAVRA UM COMANDO É AUTO-SUFICIENTE.

(Texto tirado do Livro"resenha H.M.C.A.- Comandos-Os Grupos Iniciais - II GUINÉ 1963-1966)

sábado, 24 de abril de 2010

G.C.G. - A0032:UMA HISTÓRIA VERÍDICA DE VEZ EM QUANDO- 2ª Parte

O Celebérrimo "BAILE NA ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE BISSAU"
- 2ªParte -

Liceu Honório Barreto - Bissau
Foto: Desconhecido

Os mesmos acontecimentos vistos pelo Alferes Miliciano Comando VBriote que aqui presta o seu depoimento, para memória futura

Mas que raio estava aqui a fazer? A Guiné não me dizia nada, não a sentia como sua, até se sentia um intruso. Até com os civis brancos, poucos, duas dúzias se tanto, sentia-se sem convite para ir ao Baile dos Finalistas do Liceu Honório Barreto.
Na Esplanada do Bento, a 5ªRep., como também era conhecida, bebia cerveja com mancarra, num grupo de 5 ou 6 comandos e páras. Um terá dito que naquela noite, na Associação Comercial de Bissau, havia o Baile dos Finalistas do Liceu. Outro lembrou-se de perguntar se alguém recebera convite. Eu não, tu não, aquele também não..... Ninguém se lembrou de nós, como pode ser? Queres ir?
Dentro da Associação, no enorme Salão de baile, finalistas e Familiares, todos animados a dançarem, com o Toni ao piano. Quando os viram entrar em fila, alto lá e pára o baile. Depois, ninguém soube como tudo começou...
A principio, as frentes pareciam bem delimitadas, os participantes em festa de um lado e a meia dúzia de intrusos do outro. Com o decorrer das hostilidades, as duas partes em confronto clarificaram-se ainda mais. Entre vivas ao camarada Presidente Amílcar, um pelotão da P.M.entrou por ali dentro, despachou tudo o que aparecia pela frente, trinta e tal tipos com escoriações para o hospital, a polícia civil e a PIDE também metidas. Vidros e loiças em cacos, cadeiras e mesas partidas, uma noite que nunca mais acabava.
Mesmo em frente ao Palácio do Governo, onde, soube-se, depois, da janela, o Governador via aqueles gajos darem-lhe cabo da psico. Uma vergonha!
Os acontecimentos na Associação Comercial alteraram o ambiente da cidade. A desconfiança entre a população negra, cabo-verdiana e a tropa, os nervos crispados, a porcaria mais ou menos submersa, subiu tudo. Tentava-se levar a vida normal, mas via-se pouca gente nas ruas, sobretudo à noite.A P.M. aumentara os patrulhamentos. O PAIGC, como lhe competia, aproveitava e tirava dividendos.
Nos dias a seguir ao sucedido choveram exposições no Palácio, sete, dissera todo cheio de importância o ajudante de campo do Governador. O General Shultz recebera numerosas individualidades civis, apresentara desculpas formais à Associação Comercial e aos finalistas, prometera pagar os prejuízos, tomar providências enérgicas, o habitual nestes casos.
Em Brá, o capitão interrompeu os desenhos que estava a fazer quando o viu entrar. Começou a dizer que as saídas para a cidade estavam proibidas. Depois, pediu-lhe explicações. Que se tudo tinha acontecido como se contava, que não tinha dúvidas que haveria consequências. O Governo da Província estava a ver o programa de pacificação a andar para trás, que aguardasse o auto de averiguações, que era tudo,chutara o capitão, cada vez mais longe dele e dos outros.
Logo a seguir deu-lhe ordem para ir para o Xitole, o grupo deveria manter-se lá até nova ordem, sem mais detalhes. Bater a Zona, procurar o IN, dar-lhe caça, para que é que havia de ser?
Embarcaram num Dakota até Bafatá, depois apanharam boleia numa coluna auto que os levou para Fá, rumo ao Xitole, numa coluna a abarrotar de abastecimentos.Até Fá Mandinga o percurso foi-se fazendo. Depois, até ao Xitole, foram sempre debaixo de chuva, os km.s nunca mais acabavam, as viaturas civis que aproveitaram a boleia não estavam preparadas, metiam-se na lama até à carroçaria. O Corubal parecia o Atlântico quando o atravessaram. Chegaram no outro dia à noite, com os reabastecimentos reduzidos a metade, alguns destruídos pelas águas, outros desapareceram, ninguém, soube dizer como. Mantiveram-se lá quase três (3) semanas, contactaram com o IN nas proximidades do Galo Corubal, em Satecuta, sem consequências para além de trocas de tiros à distância.
Da estadia no Xitole o que marcou mais foi a chuva. E o toque a silêncio, tocado à noite por um profissional da corneta. Um solo de requinta, de arrepiar!
Percurso inverso, quase a mesma história, com a diferença de ter sido feita a pé até Bambadinca.
Dias depois em Brá, um capitão procurou-o, queria ouvi-lo para o tal processo que estava a decorrer, já tinha ouvido os outros, só faltava ele. O que tinha acontecido, como, quando, porque é que, quem fora a cabecilha, leia, assine aí em baixo, alferes Gil Duarte, se estiver de acordo.
À noite fora até Bissau, encontrar-se com os companheiros do costume. Passaram-lhe para as mãos a Plateia, uma revista de cinema que saía em Lisboa. Folheou-a, os olhos na Brigitte Bardot a fazer festas no focinho de um burro, um pé de Sofia Loren num banco a tirar a meia preta com um tipo qualquer deitado na cama, à espera.Parou num página. Crónica da Guiné na Plateia, ora deixa ver! Uns arruaceiros tinham invadido as instalações da Associação, interromperam a festa dos finalistas e partiram tudo, à boa maneira dos teddy-boys de Liverpool ou Manchester,escrevia escandalizado o correspondente. Olharam uns para os outros calados.
Fica assim, perguntou alguém? Que não, que era melhor falar com o correspondente, esclarecê-lo, tirar-lhe as dúvidas. Bissau era pequeno, foram até à esplanada do Bento, disseram que ele devia estar lá para cima, no café Império.
Encontrarm-no, estiveram com ele, explicaram-se uns aos outros. Não foi logo na Plateia seguinte, mas a rectificação leram-na dois meses mais tarde, acompanhada de um cartão com os melhores cumprimentos.

Ora bem, meus senhores, antes de mais, devo manifestar-lhes a pena que tenho de os ter aqui nestas circunstâncias. Já tive convosco manifestações de apreço, quando o mereceram, o que não é o caso desta vez, infelizmente. Relatar aquilo que ficou apurado, é desnecessário...
Puno o alferes comando...., olhava primeiro para o citado, escrevia depois, três, cinco dias de prisão simples, o critério nunca se soube, porque no dia tal, às tantas horas,.... grave prejuízo para a tranquilidade e bem-estar públicos... contrariando os esforços que o governo da Província.... a lenga-lenga igual para todos.
Não sabia porquê, tinha apanhado três dias de prisão, a pena mínima, sabia lá, cara fechada para a Justo, que lhe perguntava porquê uma pena tão reduzida.
Desciam a escadaria quando o ouviu chamar outra vez, ó Gil, então, quando vais de férias?
Praça do Império ao fundo a ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DA GUINÉ
Foto: Desconhecido


Os mesmos acontecimentos vistos pelo Alferes Miliciano Comando LRainha que aqui presta o seu depoimento, para memória futura



A minha narrativa vai ser um pouco diferente, pois, eu fui ao baile convidado por uma Família de um dos finalistas, ou seja, todo o mundo saibia, sabe e sempre soube que eu tive uma grande paixão e amor por uma Moça da Família BARBOSA. Uma das Famílias mais importantes da Guinè, a Lu, como carinhosamente a tratava e ainda hoje a lembro com saudade.
Muitas coisas se fizeram contra este amor, a tudo ele foi resistindo, mas houve uma altura que caíu.
Bem, vamos ao que interessa, que é o Baile de Finalisatas do Liceu Honório Barreto de Bissau. Já lá vão cerca de quarenta e cinco anos e ainda me parece que foi ontem.
Pelas 19H00 do dia 05Jun65, o condutor do meu Grupo foi-me levar a Bissau e perguntou-me se era necessário ir-me buscar. Respondi que não pois eu me arranjaria. Deixou-me junto à porta de casa de minha namorada e foi-se embora, dizendo um breve , até amanhã.
Fui buscar a Lu e fomos jantar ao Grande Hotel e de lá fomos para o baile.
Não houve contar novamente tudo, pois os meus camaradas já o fizeram e como tal interessa só o que se passou connosco, vi e ouvi.
Já durante a jantar fui ouvindo que se estava preparar algo contra os brancos, informo que a minha Companheira era morena - muito bonita, pois não os iam deixar entrar no referido baile, como mais tarde aconteceu.
Depois do Jantar, como era cedo ainda passámos por casa e os rumores continuavam; chegando ao ponto da própria me alertar de que podia ir descansado pois estava convidado.
Chegados ao baile fomos à mesa que nos estava reservada e a seguir fomos dançar, mas o ambiente era tenso e ainda nem sequer se via nada de anormal. Cerca das duas horas da manhã é que as coisas começaram a azedar com a entrada em cena da tropa branca, que logo foi rodeada pelos cabo-verdiano aos gritos e insultos.
Estava declarada a guerra há tanto tempo esperada pelos cabo-verdianos.
O pior de tudo é que os nossos Chefes não viram ou não quiseram ver as coisas como elas eram e estavam a acontecer.
Enviaram as P.M. e a Policia civil para dar em tudo que fosse branco.
Eu, a única coisa que fiz foi protegera Senhora que estava comigo, por consequência à minha guarda. Colocando um dos meus braços por cima dos seus ombros e com o cartão de oficial do exército lá fui abrindo caminho pelo meio da multidão e dos Policias, estes distribuindo cacetada por tudo quanto era sítio, não poupando ninguém, tentavam aclamar os ânimos.
Quando íamos a caminho de casa vimos o General Shultz à varanda em pijama a ver o espectáculo.
Claro, que quando os cabo-verdianos quiseram a coisa acabou.
De tudo isto, podem-se tirar várias conclusões, mas duas (2) há que saltam logo aos olhos de qualquer pessoa medianamente inteligente. Toda a barraca foi muito bem preparada pelo PAIGC e os nossos Chefes da altura caíram que nem uns patinhos. E porquê?
Por causa da PSICO-SOCIAL, uma palermice em que os nossos governantes acreditavam ou queriam acreditar.
Assim, acabou um episódio que podia ter facturado para o nosso lado, mas pela incompreensão dos Chefes Militares foi o adversários que ficou com os louros.
Mas, sempre foi assim, nós havemos de ser os eternos coitadinhos.
Praça do Império - à direita fica o Palácio em que de pijama o Governador viu tudo
Foto: Desconhecido

Desta História, como já atrás se disse, resultaram alguns castigos e aqui vamos publicar um Extracto, ou seja, as Páginas 803 e 804 da O.S. nº:70 de 27Ago65 do C.T.I.G. - Artº 99 - CASTIGOS.

O.S. nº: 70 de 27Ago65 do C.T.I.G.  pág. 803

O.S. nº: 70 de 27Ago65 do C.T.I.G. pág. 804

G.C.G. - A0031: GUINÉ - 3ª PARTE - POR TRILHOS E BOLANHAS


            
Slide gentilmente cedido pelo Cmdt do GRUPO "DIABÓLICOS"
Alferes Comando V.BRIOTE - Autor e Proprietário deste slide

sexta-feira, 23 de abril de 2010

G.C.G. - A0030: UMA HISTÓRIA VERÍDICA DE VEZ EM QUANDO- 1ª Parte


O Celebérrimo "BAILE NA ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE BISSAU"
- 1ªParte -

Várias são as versões do que ocorreu neste BAILE, mas nenhuma delas é feita por quem viveu os acontecimentos. Vamos transcrever três dos relatos feitos por três indivíduos que estiveram presentes, dois dentro do baile e o outro fora do mesmo, eu próprio farei um pequeno comentário. Pois estive dentro do assunto,até vim numa Foto, que fez capa de uma Revista muito em voga naquela altura em PORTUGAL - "PLATEIA".
Tal Revista, para parecer bem, até nos apelidou de "Energúmenos", ou seja, indivíduos possessos do demónio que praticaram vários desatinos.
Vamos pois, começar o relato dos acontecimentos por quem os viveu e até os sentiu na própria pele.
Liceu Honório Barreto - Bissau (GUINÉ PORTUGUESA)
Foto: Desconhecido

(Do diário da Guiné, do então Furriel João Uva)
"5 de Junho de1965,    sábado,   fomos passar a manhã   à   praia    de   Quinhamel.
À noite fui ao Baile dos Finalistas da Escola Secundária, que teve lugar na Associação Comercial de Bissau. Era por convite, que no caso paguei 100$00 pela entrada. Conheci a Helena, Cabo-Verdiana, uma moça alta e elegante, à volta dos 25 anos, que me disse ser sobrinha do Pinto Bull, um dos grandes lá da terra.A certa altura estava eu a dançar mais uma vez com a moça, a quem fiz, aliás, companhia até o Baile acabar, quando, sem convite, vejo graduados dos Comandos vestidos à civil, entrarem por ali dentro sem ligarem aos protestos dos porteiros. Uns dirigiram-se ao Bar e outros para a pista, pedindo educadamente uma dança às finalistas do Liceu.
Após a entrada, o alferes Justo foi falar com os Africanos que se encontravam sentados numa mesa rectangular,junto a uma janela, que dominava o enorme salão, e que por sinal eram os responsáveis da festa da Escola. Inesperadamente, e sem qualquer motivo aparente, um deles partiu-lhe uma garrafa na cabeça. Logo a seguir ouviu-se, vindo da referida mesa outro a gritar, e outros a fazerem coro. Se o nosso Chefe estivesse aqui, e não em Conacry, referiam-se a Amílcar Cabral, nada disto acontecia, pois não entravam mesmo. O ambiente ficou muito tenso. E ficou muito pior quando o alferes Gil, o Mota, o Mirandela e o seu inseparável cão"UÍSQUE", entraram de rompante, com o cão a ficar no Hall de Entrada, à guarda de um Africano.
Furriel Ribeiro com o uisque - O nosso GRANDE AMIGO

Eram cerca de quatro horas da madrugada quando começou uma troca de murros num sítio, logo outra zaragata mais lá abaixo, depois a zaragata estendeu-se a vários pontos, à volta da pista de dança. Fez-me lembrar um fósforo a arder, a pegar fogo aos outros.
Apesar dos distúrbios, e como a música continuava a tocar, alguns pares tentavam alhear-se dos acontecimentos e continuavam a dançar.
Mais tarde,estimou-se que ao todo, éramos cerca de uma dúzia, e os africanos, negros e cabo-verdianos, que lá se encontravam mais de duzentos (200). Dada a disparidade de forças, vários paraquedistas entraram para dar uma ajuda.
Eu, que continuava a dançar, pedi à Helena para não sair da Pista e continuar a dançar sozinha, ao que ela acedeu, nem sei bem porque lhe pedi, nem porque ela acedeu. Disse-lhe que não me demorava, ia só solidarizar-me com os meus camaradas e depois voltava. Ela ainda me disse que eu podia ficar magoado, tranquilizei-a, disse-lhe que tinha alguma prática, que em Lisboa tinha estado em clubes a praticar boxe durante dois anos, tendo feito mesmo vários combates em público. Assim, e por três vezes, dava um pezinho de dança, atravessava a pista por entre os pares que estavam a dançar, ia a uma das zonas da pancadaria que por sinal se prolongou por bastante tempo, envolvia-me e dava uns bons pares de murros. Na altura não me cheguei a aperceber do motivo dessa minha atitude pois podia, facilmente, ficar amarrado ao barulho. A certa altura já toda a gente estava envolvida.
A P.M. entrou e tentou serenar os ânimos. Até que tudo se acalmou pelas seis da manhã.
Começaram então a pedir a identificação dos nossos, para mais tarde serem alvo de um processo de averiguações, o que nunca me pareceu que viesse a acontecer e que acabaria tudo por ficar em "águas de bacalhau". Enganei-me redondamente, mais tarde vim a saber que alguns camaradas foram mesmo alvos de processos disciplinares, pelo que cheguei à conclusão de que eu tinha tido muita sorte, pois juntei o útil ao agradável.
Não liguei mais ao assunto, por estar mesmo convencido que as altas patentes militares passariam uma esponja sobre o sucedido, não só devido ao facto de um oficial "comando" ter sido agredido, termos sido ofendidos e, como tal, todo o Exército Português, quando deram vivas à Guiné livre e independente e ao Amílcar Cabral.Afinal o Governador da Guiné defendia os seus homens ou o PAIGC?
No entanto pelo sim pelo não, e como o seguro morreu de velho, quando vi a P.M. entrar, apressei-me a atravessar, discretamente pelo meio dos pares, para os braços da Helena, a minha tábua de salvação, que estava a dançar sozinha e agarrei-me logo a ela. A P.M. não se deve ter apercebido que eu também andava no barulho, e tal como era de esperar nenhum dos nossos falou no meu nome, ninguém veio ter comigo para me pedir a identificação, e assim escapei. Que eu soubesse, a um dos que foi pedido o nome foi ao Mirandela, que para evitar o pior, foi ao Q.G. no dia seguinte, falar com um parente que lhe abafou uma eventual punição.
Ao fim e ao cabo, no meu critério, se tinham de punir os comandos, já que, pelo que se soube mais tarde, aos páras não aconteceu nada, deveria ser apenas pelo facto de terem entrado sem bilhete, já que a pancadaria foi iniciada pelos responsáveis da festa.
Afinal, como queriam que os comandos reagissem numa situação como esta? E o que aconteceu a quem partiu a garrafa na cabeça do alferes Justo? E os que proferiram insultos? E os que, no ambiente de guerrilha que se vivia, despoletaram a situação ao mencionar em altos berros o nome de Amílcar Cabral?
6 de Junho 1965, domingo. 
Às 19H00, fui com o Mirandela e alguns fuzileiros à Praça do Império. Vimos pequenos ajuntamentos de africanos, em atitudes hostis, talvez instigados pelo PAIGC, a tentar tirar ainda mais dividendos dos acontecimentos daquela madrugada.
Não sei bem como tudo começou, sei que um deles apanhou o Mirandela distraído, deu-lhe um murro, e depois correu a refugiar-seno cinema UDIB. Fomos atrás dele e nessa altura o porteiro cabo-verdiano começou a fechar a porta de correr, que era de lagartas, e assim o agressor escapava ileso ao que tinha feito. Para evitar que isso acontecesse puxei do cinturão de cabedal, dei-lhe com a fivela com toda a força na mão, e aporta não se fechou. O Mirandela entrou, apanhou-o e tratou dele.
Regressámos à Praça do Império e vimos uma pequena multidão à nossa espera. Eram muitos, pedimos pela rádio para Brá para que toda a malta comando que estivesse disponível viesse ter connosco, porque não se sabia o que podia acontecer. Não demoraram nem meia hora, felizmente. Neste intervalo, a multidão ganhou coragem e atacou-nos com o que podia e nós defendemo-nos com os cinturões. Quando viram o alferes Gil a chegar com duas Mercedes cheias de comandos, fugiram em debandada.
Com a Praça vazia usámos os mesmos veículos e regressámos todos a Brá.
Edifício da Associação Comercial da Guiné sita na Praça do Império, mesmo ao lado do Palácio do Governador
Foto: Desconhecido
Acabei agora mesmo de receber do meu Camarada e colega João Parreira, o João Uva, pessoal e integral do que se passou com ele. Obrigado João pela tua honestidade e verticalidade.
Para não demorar muito vou digitalizar, para que caso queiram possam ler o que se passou naquela célebre noite.

                     
Aqui fica a Narrativa do Camarada João

Os mesmos acontecimentos vistos pelo Furriel Miliciano Comando Mirandela que aqui presta o seu depoimento, para memória futura

Morreu um tipo qualquer de um qualquer País, o Salazar decretou três dias de luto e lá ficámos nós a ouvir música de mortos com a nossa bandeira a meia hasta. Custava-nos engolir estas histórias quando os nossos mortos eram ignorados.
Falava-se no próximo Baile dos Finalistas, que ia ser uma festa de arromba. Alguns dos nossos iam roncar com as namoradas ou com os arranjinhos. O Parreira andava todo satisfeito e o Quintanilha, aquele alferes dos páras até tinha mandado vir fato de cerimónia.
Quando estive de férias na metrópole logo a seguir à formação dos Grupos, os "Fantasmas" tinham accionado uma mina e perderam nove (9) dos nossos. Entre eles o meu grande amigo Artur. Morrem-nos nove (9) homens e a Emissora Nacional continuou a twist e -. Era isto que nos custava a engolir.Era este espírito que nos dominava nas semanas que antecederam o tal baile. A acrescentar, cabo-verdianos e alguns sectores guineenses não viam com bons olhos a nossa presença nas festas deles.
E chegou o dia,  melhor dizendo a noite da festa. Os furriéis Ilídio, Fabião, o Matos e eu, todos à civil, com o uisque ao lado, o valente pastor alemão que nos fazia sempre companhia. Logo à chegada vimos polícia de choque na entrada principal e Polícia Aérea na varanda. Tivemos alguma dificuldade em convencer os polícias cá de baixo, levou algum tempo e paciência, mas por fim lá se convenceram a olhar para o lado e fomos até ao bar da cave beber uma cerveja. O homem dobar que por sinal era PIDE, cismou com o uisque. Saia uma cerveja para cada um! O cão lá para fora! Palavra puxa palavra, sabe-se como é. Às tantas, diz que é melhor prestarmos atenção, que era da PIDE. Pois este cão nunca esteve ao balcão de um bar, mas fez mais pela pátria do que muitos como você. O uisque, atento a tudo, pôs as patas em cima do balcão e mostrou-lhe os dentes. Ficámos calados à espera, até o PIDE ao balcão se resolver a alinhar os copos e as garrafas. De copo na mão, sentámos-nos nos cadeirões à entrada e fomos vendo as debutantes, todas enfeitadas. Como o uisque ladrava como um desalmado, trouxe-o para a rua. Nisto quatro (4) negros acercaram-se de nós, depois mais uns tantos, quando demos por ela, estávamos numa roda deles. Eu  estava com dificuldade em controlar o uisque, um negro, perdido, gritou, eu fodo-te cão de um filho da puta, ensaiou um biqueiro no cão, a algazarra à nossa volta aumentava, incitavam-se uns aos outros, fodam-me esses cabrões e a polícia sem força para os acalmar. O uisque aproveitou a folga na trela para filar a perna de um, os outros debandaram pela escada acima e nós saímos para  a rua. Uns minutos depois, uma turba desceu as escadas na nossa direcção e tropeçaram no Matos. Lá em cima, o Godinho e outros que se tinham feito convidados já andavam à trolha. Ouviu-se um tiro na varanda e o director da associação pôs-se na alheta. A malta que estava nas esplanadas, em frente à Associação, quando viu aquele salssifré todo, decidiu participar na festa, correram pelas escadas acima. Entre vivas ao PAIGC e ao Cabral a Polícia desapareceu. Ouviam-se gritos por todo o lado, larguei a trela e o uisque foi por ali fora com o Matos´`a frente a abrir. O Parreira largou a namorada, familiares dela, tudo, para se juntar a nós. O Quintanilha, o tal pára do fraque, perguntou alto, o que estou eu aqui a fazer com esta roupa e com este calor? No ar cruzaram-se cadeiras, copos, sapatos, pratos, talheres, num chavascal danado. Uma cena indescritível que durou uns largos minutos até ser interrompida pela P.M.. Ponham-se daqui para fora, isto agora é connosco.
Mas isto não ficou por aqui, claro. Os fuzos estavam pior que baratas, não tinham sido convidados nem nada. Encontrámos-nos na UDIB(União Desportiva Internacional de Bissau).
Eu, o Parreira, o Pinguinhas do 8º Destacamento de Fuzileiros e o Furriel Miranda dos páras fomos até à Praça do Império, mesmo em frente ao Palácio do Governador. Um numeroso grupo  de negros que ali se encontravam começou a ameaçar-nos. O Pinguinhas foi ao café e pouco depois avisou que os fuzos vinham a caminho. Dirigi-me para os gajos. Quando cheguei junto deles disse-lhes qualquer coisa que já não me lembro. Em troca recebi um valente murro q2ue me fez ver as estrelas. Mas não caí, só vacilei. A centelha que faltava. Do café apareceu tropa macaca, comandos, páras, fuzos, um pandemónio outra vez. A mim interessava-me caçar o gajo que tinha tocado nesta cara que o meu Pai desenhou. Sempre ao meu lado, o Parreira acompanhou-me. À entrada do bar do cinema da UDIB havia um pátio com um portão de ferro, daqueles de correr. O gajo tinha-se escapulido por ali dentro, e um cabo-verdiano tinha corrido o portão. Como o gajo não o abria, o Parreira assapou-lhe com a fivela do cinturão e o portão de uma maneira ou doutra abriu-se. Entrei por ali dentro e nisto apareceu a barrar-me o caminho o responsável do cinema. Senhor comando,por amor de Deus, pare, vão destruir tudo! O assunto é comigo e com aquele gajo que está ali, o resto não é para aqui chamado. Fora daqui, toda a maralha!
À saída encontrei-me com um furriel da P.M., já meu conhecido. Pira-te, vem aí um pelotão da P.M..
No outro dia de manhã, em Brá apareceu um capitão da P.M. para proceder à identificação.Não me dei por achado e dirigi-me ao Q. General, ao major Magalhães, um dos oficiais que mais se torceu pela criação dos comandos da GUINÉ. Deviam era dar-lhe uma medalha, deixe o assunto por minha conta, Mirandela. Não me livrei de um Auto de averiguações. Outros não tiveram a mesma sorte, como se sabe e como também é costume nestas histórias.
Pois o julgamento que se fez do GENERAL SHULTZ, quando se diz que aquela história da Associação Comercial pôs em causa a psicossocial, quanto a mim não terá muito a ver com o que ele quereria. Conheci-o como Comandante da Zona de intervenção norte em Angola e vi-o como estratego que não dava tréguas ao IN. Quando foi nomeado Governador e Comandante-Chefe da GUINÉ encontrou-se num dilema. Se por um lado tinha de meter na ordem os resistentes, exercendo acções militares punitivas, como Governador tinha que cumprir as determinações de Lisboa, que eram puxar para o nosso lado esses mesmos rebeldes. Uma tarefa difícil. E ele dizia, em Angola fui Comandante Militar, tinha por missão acabar com as acções inimigas. Aqui sou Comandante Militar, mas também Governador. Tenho de pôr um bocado de água na fervura, para não aumentar a população rebelde.
Ora, o caso da Associação foi de facto um rude golpe na estratégia. Mas teve, pelo menos, um aspecto positivo, o que andava escondido veio ao de cima.
Como Governador, o General Shultz, quanto a mim, empenhou-se em circunscrever as acções da guerrilha e estrategicamente foi mais activo que o Spinola que esteve sempre muito mais interessado em publicidade e na sua auto promoção. Foi com o Spinola que as acções de guerrilha tomaram as proporções que se conhecem, com retiradas absurdas, tal como a dele depois do 25/4/75, com aquela precipitada fuga para Espanha, deixando Portugal à beira de uma guerra civil.
Fim da 1ª Parte- segue próximo capitulo

sexta-feira, 16 de abril de 2010

G.C.G. - A0029: NORMAS P/SERVIÇO INTERNO



Como em tudo que existe e que se quer a funcionar em pleno, ou seja, no óptimo tem de ter as sua Normas de Conduta e Normas de Serviço, ora, os Comandos também têm as suas Normas e como tal são muito ciosas no seu cumprimento. Existem duas (2) espécies de Normas: As do SERVIÇO INTERNO e as de INSTRUÇÃO.

-- As do SERVIÇO INTERNO, são:

Os Instrutores e os Monitores são os Auxiliares directos do Comando da Unidade. Têm por isso a obrigação de cumprirem e fazerem cumprir todos os Regulamentos até ao mais infímo promenor.

-- Atavio e Apresentação:
Um Comando tem de andar sempre, mas sempre bem vestido e a sua apresentação tem de ser impecável.
-- Conservação e beneficiação, quer das instalações, quer do material:
Um Comando tem a obrigação e o dever de olhar pelas instalações do seu Aquartelamento, pois este é a sua casa onde vai viver durante os próximos tempos, ao mesmo tempo deve procurar , mais os seus colegas, melhorá-la e mantê-la sempre nas devidas condições.
Quanto ao material, acontece a mesma coisa, isto é, deve ser bem cuidado pois dele depende a nossa sobrevivência. Por exemplo: Arma mal lompa, não funciona, resultado pode daí advir a nossa morte.
-- Farda a utilizar:

  • DURANTE A INSTRUÇÃO:Farda camuflada c/boné de duas (2) palas (a pala da                                                     rectaguarda metida dentro do boné) e bota de lona.

  • FORA DA INSTRUÇÃO: Calça ou calção, camisa, sapato, ou bota e boina.
-- Cabelo e Barba:
Era ogrigatório o uso de cabelo cortado muito curto ( por uma questão de higiéne e limpeza) e fazer a barba diariamente.

-- Conservação do Material:
Os instrutores e Monitores deveriam participar toda e qualquer anomalia verificada no material de aquartelamento ou de guerra, no mais curto espaço de tempo.

-- Limpeza de Casernas e de maos Edifícios:
Seria passada revosta diária pela Direcção do Centro durante a 1ª hora de instrução. A limpeza dos Edifícios compreendia o terreno circundante, no espaço mínimo de 3 metros.
-- Horários:
Alvorada........................................................................................ 06H00
1ª Refeição .................................................................................... 06H30
Bandeira ........................................................................................ 07H55
1º Período de Instrução ................................................  08H00 às 12H00
2ª Refeição .................................................................................... 12H30
2º Período de Instrução ................................................. 15H00 às 17H00
3ª Refeição .................................................................................... 18H00
Instrução Nocturna .......................................................... 20h3 às 22H30
Atenção: A instrução Nocturna pode ser a qualquer hora da noite e durar alguns segundos ou muitas Horas.

Um COMANDO tem de estar preparado para cumprir qualquer Horário ou qualquer Ordem assim que esta seja dada.

-- O Comando desloca-se em passo de corrida:
O Comando, sempre que era chamado por qualquer superior, deslocava-se em passo de corrida.

-- Transporte da Arma:
A arma (qualquer que seja o seu Tipo ou Formato é vital para um Comando, é a sua Mãe, a sua Namorada, a sua melhor Amiga, o seu melhor Amigo, numa palavra é aquela que lhe salva a vida quando necessário.
O Transporte permanente da arma distribuida, era exigido durante toda a Instrução, ficando sujeito, em qualquer instante, à revista individual passada por qualquer Oficial do Centro.
O não cumprimento desta norma, sujeitava o Comando a graves castigos.

-- Instrução:
Os InstruutoreseMonitores procuram ao longo da instrução seleccionar os melhores elementos, pela eliminação dos mais fracos e incapazes que regressavam às suas Unidades de Origem.
Os considerados finalmente aptos recebiam o título de "COMANDO" e tinham direito ao uso da inscrição "COMANDO" na manga,da camisa ou do blusão, do Emblema metálico (Crachá) no peito e do Emblema também metálico na BOINA. Toda a Cerinónia da imposição de Títulos ou eliminação seria feita solenemente em Formatura Geral.

-- Formatura Geral Diária:
O dia inicia-se com a formatura geral, em quadrado aberto num dos lados, frente ao Edifício do Comando e com a seguinte sequência:

- Apresentação da Formatura
- Revista
- Içar da Bandeira
- Leitrua dos Deveres do Comando
- Início da Instrução


quinta-feira, 15 de abril de 2010

G.C.G. - A0028: MATERIAL DE INSTRUÇÃO E MEIOS DE APOIO


Com a criação definitiva do CIC e a aproximação do início da instrução, levantavam-se inúmeras dificuldades em termos de material de apoio. O CIC não estava preparado para assegurar com normalidade o desenvolvimento da instrução, umas vezes por inexistência de material necessário, outras por falta atempada dos orgãos próprios que o deveriam assegurar. Já em Dezembro de 1963 o Major Correia Dinis tinha levado junto aos COMCHEFE e QG/CTIG, as necessidades específicas em Fichas de Instrução e Livros e Regulamentos Militares de apoio à instrução de um Cursos de Comandos, fruto do conhecimento e experiência adquiridos em ANGOLA. Sobre as primeiras foram solicitadas entre outras:

-- Fichas de Educação Física
-- Fichas de Aplicação Militar
-- Armamento e Equipamento
-- Higiéne e Primeiros Socorros
-- Ordem Unida
-- Instrução de Combate
-- Transmissões
-- Organização do Terreno
-- Minas e Armadilhas

 Sobre os segundos foram requisitadas publicações sobre:

-- Armamento
-- Minas Terretres
-- Noções de Higiéne Tropical
-- Noções sobre Maqueiros
-- Equipamento indivíual de Primeiros Socorros
-- Instruções para o Combate de Infantaria
-- Noções sobre Patrulhas
-- Noções sobre Armas Pesadas
-- Noções sobre Sobrevivência e material didático
-- Noções sobre Prisioneiros de Guerra
-- Instruções de Sapadores de Armas
-- Regulamentos de Campanha

Houve  duas áreas de instrução em que a aquisição dos meios necessários se tornou mais problemática; referimo-nos à mentalização para o que era preciso garantir a instalação sonora, gravadores, cassetes e megafones e a área dos meios de transporte que requeria o emprego de jeeps, unimogs, e viaturas pesadas (GMC) que, não estando dispuníveis, se se tornava necessário garantir noutras Unidades em tempo oportuno, o que nem sempre se conseguia e obrigava a ajustamentos de última horados Programas/Horários de Instrução (o velho desenrasca à Portuguesa).
Em Junho de 1964, fruto do trabalho empenhado e persistente do Major Correia Dinis em coordenação com o COMCHEFE e o EM do CTIG e o apoio directo e imediato do BCaç 512, aquartelado em Brá, tinha sido já concentrado no Centro muito material necessário à instrução de combate como:

-- Silhuetas
-- Bandeirolas
-- Estacas
-- Cavaletes
-- Metralhadoras preparadas para o tiro simulado(Madsen)
-- Granadas de mão inertes
-- Bússolas
-- Jogos de ferramenta portátil individual

Na área de explosivos, minas e armadilhas foi assegurado algum material essencial como alicates estranguladores, explosor, galvanómetro, arame farpado capacetes, cordão detonante, detonadores, petrardos, TNT e minas.
Algumas das dificuldades foram ultrapassadas pelo aproveitamento de materal capturado ao IN de que se destacam granadas de mão ofencivas e defensivas, minas A/C e A/P, 2 PPSH c/carregadores, 1 espingarda MOSIN c/munições, 1 pistola metralhadora USI e muitas munições.

Assim, foi ultrapssado o primeiro embate com a realidade portuguesa o celebérrimo desenrascans
{Este texto foi praticamente retirado do Livro" RESENHA H.ouM. das C. de ÁFRICA(61/74)}

G.C.G. - A0027: ESCOLHA DO AQUARTELAMENTO PARA OS "COMANDOS"


A CRIAÇÃO DO QUARTEL E CENTRO DE INSTRUÇÃO DE COMANDOS EM BRÁ :

 Tinha-se de arranjar um local apropriado para a Instrução dos Novos Comandos e que ao mesmo tempo service para futuro, isto é, que os comandos que iam nascer tivessem onde ficar.

Claro, que tudo isto trazia muitas responsabilidades quer no aspecto logistico, quer no aspecto formal.  Mas, como tudo na vida o que é necessário é ter espirito de corpo e muita vontade: eis, que nasceu uma luz ao fundo do Tunel. O QUARTELAMENTO EM BRÁ?

Perguntaram os conhecedores da matéria.

Por que o Aquartelamento de Brá, servia até à altura como Depósito Geral de Adidos, isto é, era um quartel que estando no início da sua montagem servia para albergar, durante curtos espaços de tempo, Unidade Militares que chegadas da Metrópole se praparavam para seguir os seus destinos nos diversos pontos da Guiné.

Além disso, era Unidade Militar que se situava a cerca de quatro km. de Bissau (Capital da Guiné), perto do aeródromo e Aeroporto de Bissalanca e no eixo Bissau-Mansoa e muito próximo do Hospital Militar, que se situava entre Bissau e o Aquartelamento de Brá; havia um pequeno inconveniente, pois tinha sido indicado como óptimo, o isolamento dos COMANDOS da restante Tropa; mas, por outro lado tinha várias vantagens e a principal era a de que como residentes havia um Comando de Batalhão e uma Companhia de Comando e Serviços, o que ia facilitar a parte logistica da questão.

Inicialmente foi cedidas sómente duas (2) Casernas e respectivas arrecadações, mas com o tempo e a boa vontade dos Homens o espaço foi aumentado, até por que foram sendo efectuados novos Edifícios.

Assim, foi decidido aceitar e o AQUARTELAMENTO DE BRÁ, passou a chamar-se "Aquartelamento de Brá - CENTRO DE INSTRUÇÃO DE COMANDOS", cuja actividade teve início oficialmente em 23 de Julho de 1964, sob o comando do Major de Infataria "COMANDO" António Dias Machado Correia Dinis.

Mas já antes, em 29 de Abril, na Sala de Operações do QG/CTIG, realizara-se a cerimónia oficial de imposição de crachás "COMANDO" ao então Director do CENTRO DE INSTRUÇÃO, Major Correia Dinis e aos OFICIAIS, SARGENTOS e PRAÇAS do "GRUPO DE COMANDOS" que tinham estado em Angola e aos que participaram na OPERAÇÂO "TRIDENTE".

A 28 de Agosto de 1964 visitaram oficialmente o auqartelamento de Bráos Comandantes-Chefe e Militar respectivamente Brigadeiros, Arnaldo Schulz e Sá Carneiro com a finalidade de assistirem ao funcionamento do CENTRO DE INSTRUÇÃO DE COMANDOS.

ASSIM, NASCEU O NOSSO

CENTRO DE INSTRUÇÃO DE COMANDOS

DA

GUINÉ